*Virados e vocacionados para o futebol, não dirão ao mundo que, segundo o Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU[bb], cerca de 12 milhões de pessoas poderão morrer de fome em Angola, Botswana, Lesoto, Malaui, Moçambique, Suazilândia, Zâmbia e Zimbabwe se não forem distribuídos um milhão de toneladas de cereais. E entre as declarações de Carlos Queiroz e Dunga não sobrará tempo para dizerem que não faz sentido pedir aos pobres dos países ricos para dar aos ricos dos países pobres. Que não faz sentido enviar para África toneladas de antibióticos, porque estes remédios são para tomar depois de uma coisa que milhões de africanos não têm: refeições.
*Ao olharem para as estruturas físicas da Copa do Mundo, os jornalistas vão ficar admirados com a capacidade da África do Sul. E de tal forma isso vai acontecer que vão ficar cegos quanto à realidade que está para além dos estádios de futebol e dos hotéis. Ninguém vai dizer que África[bb] está como está (poucos com muitos milhões e muitos milhões com pouco ou nada) porque os líderes africanos de uma forma geral (e nem Nelson Mandela conseguiu pôr ordem na casa) falharam depois das independências em todos os parâmetros da governação.
*Em algum lado se dirá que quando nasceram os primeiros Estados africanos independentes, nos anos 50, África estava melhor em termos económicos? Não. Aliás, essas falhas graves (corrupção e similares) não só não provocaram o desenvolvimento e a igualdade como, o que não é menos grave, aceleraram o retrocesso. A culpa não é, está bom de ver, só dos maus líderes africanos. É também do povo que aceitou ser governado por ineptos, mas, sobretudo, do mundo ocidental que sempre olhou para África com a ideia de “quanto pior… melhor”.
*Isto porque se os africanos morrem, à fome ou nas guerras, as riquezas (petróleo, diamantes etc.), essas continuam lá. Se a África do Sul, por exemplo, tem capacidade para organizar a Copa do Mundo, porque razão não consegue ter a dignidade de puxar pelo continente para tirar África da suicida dependência do Ocidente? E se todos concordam que não se justificam a fome, a ignorância e a doença que assolam África, poucos são os que se atrevem a dizer que a solução passa por banir dos governos os políticos corruptos que, ao contrário das teses de Nelson Mandela, não vivem para servir. E se não vivem para servir, não servem certamente para viver.
Mas como é de futebol que o povo (seja ou não africano) gosta, a verdade é que o mundo vai parar para ver a Copa do Mundo. É um ópio que, também em África, fará esquecer a barriga vazia. Depois? Depois virá a ressaca e tudo regressará ao normal.


3 comentários:
e o normal da áfrica é a fome e miséria como mesmo diz o texto!
é o normal, mas tem muda !
Por isso q o mundoo naum mudaa agentee jah se acostumou com tudo, achamos q tudoo eh normal.
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